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Four Seasons

Um conto sobre reencontros

Eu a vi pela primeira vez no primeiro dia de outono.


Eu lembro desse dia porque estava chovendo muito, e eu odiava chuva.


O café estava cheio e quando a porta abriu, a vi balançar o guarda chuva e tirar o capuz. A bota marrom não combinava nada com a capa de chuva amarela, assim como não combinava com o guarda chuva verde com bolinhas vermelhas. Era uma combinação horrorosa.


Eu não acreditava em amor à primeira vista, mas eu juro por Deus que quando nossos olhos se encontraram, tudo o resto ficou em câmera lenta. Pode ter sido minha imaginação, mas vi seus lábios se curvarem em um pequeno sorriso antes dela tirar seus olhos verdes dos meus.


No meu fone de ouvido, meu amigo do trabalho me chamou.


— Daniel?


— Sim? — respondi sem tirar os olhos da mulher que entrava na fila para fazer seu pedido.


— A planilha, não vai me mandar?


Era tarde, quase cinco horas, e o expediente estava acabando. Eu trabalhava de casa, e, pela primeira vez em meses, decidi pegar um café na cafeteria que ficava de frente para meu apartamento. Quais as chances? Mas sempre fui um cara cético.


— Até o final do dia vai estar no seu email — respondi meio sem vontade.


Ele suspirou do outro lado da linha.


— Ok. Até amanhã.


Não me dei o trabalho de responder.


A mulher pagou pelo pedido e ficou esperando na frente do balcão.


Olhei na tela do computador. Eram 4:27, tinha 33 minutos para acabar o trabalho do dia. Levaria menos de cinco minutos para levantar e pegar seu número.


Ela pegou um livro da sua bolsa e começou a folhear, sem prestar atenção no que acontecia ao seu redor. Eu poderia levantar, arranjar uma desculpa, perguntar sobre o livro, qualquer coisa do tipo…


— Caroline!


Engoli em seco quando o barista chamou seu nome e ela andou para pegar sua bebida —um pumpkin spice latte.

A vi caminhar até a saída, mas assim que ela olhou para fora, a chuva piorou. Caroline se virou e procurou um lugar para se sentar. A única mesa vazia era do outro lado do café. Quis pedir para ela sentar comigo, eu estava em uma mesa para dois, e a cadeira na minha frente estava disponível.


Mas eu me conhecia. Precisaria de muita coragem se quisesse falar com ela e a dura realidade era que eu não tinha.


A observei. Ela levou o copo até os lábios e deixou o livro em cima da mesa, soprou a bebida antes de tomar um gole.


4:31.


Sabia que poderia perder a oportunidade caso deixasse ela ir embora. Tirei meus olhos da mulher apenas para ver a planilha e a barra do teclado que estava piscando. Eu odiava meu trabalho. Era um saco, odiava finanças, mas era o que pagava minha vida em Nova York.


A mulher passou os olhos pelo salão, se sabia que eu estava a encarando, não demonstrou. Ela voltou sua atenção para o livro. Caroline era um nome que combinava com ela. Os olhos verdes faziam um par perfeito com a pele escura e os cachos pesados, era o tipo de mulher que eu sabia que ia arruinar minha vida amorosa, e, mesmo assim, algo nela me chamava.


Quando pensei em levantar, alguém se aproximou da sua mesa. Era outra mulher. Elas se cumprimentaram com um abraço rápido. Pareciam ser amigas próximas e a outra não perdeu tempo em se sentar de frente para Caroline.


Lá tinha se ido a minha oportunidade.


Não queria a deixar desconfortável, então sabia que se quisesse o seu número, teria que esperar ficar sozinha de novo.


Voltei ao meu trabalho, mas sem tirar totalmente os olhos dela. Talvez a outra fosse embora logo… talvez eu ainda tivesse chances… talvez…


Caroline se levantou, acompanhada da amiga.


Eram 4:49, prometi entregar a planilha, e era isso que eu ia fazer. Aceitei a realidade quando ela passou por mim e consegui sentir seu perfume de vanilla.


Tinha perdido minha oportunidade.


Mais uma vez.


⋆✴︎˚。⋆


Era inverno quando a vi pela segunda vez.


Um flash de uma memória antiga passou pela minha cabeça. Mal acreditei quando vi a mulher entrar no café. Achei que era uma miragem porque não era possível. Passei tempos pensando nela, a ponto de achar que tinha sido fruto da minha imaginação, mas não. Ela estava lá, na minha frente.


Caroline estava usando um vestido listrado, preto e branco, com uma meia calça grossa vermelha. Seu casaco de neve era rosa, e de novo, uma combinação horrorosa, mas que, de alguma forma, ela conseguia fazer dar certo.

Ela foi até o caixa. Tinha me demitido do trabalho e encontrado um novo, dessa vez era mais suportável e as horas mais flexíveis, por isso estava no café. Tinha saído para respirar um pouco, ficar em casa o tempo todo durante o inverno estava me deixando maluco.


Agora eu não tinha desculpas. Era só levantar e conversar com ela… Convidar para tomar um café…

Mas, enquanto eu pensava em como me aproximar, alguém surgiu. Era um homem, parecia ter nossa idade aproximada, perto dos 30 provavelmente. Ele cutucou seu ombro e ela virou. Caroline abriu um sorriso enorme e o abraçou.


Naquele momento eu soube: não tinha espaço para mim.


⋆✴︎˚。⋆


Eu a vi pela terceira vez na primavera.


Mesmo sem acreditar muito no destino, estava ficando com raiva. Como ele poderia colocar alguém na minha vida dessa forma, apenas para esfregar na minha cara como não poderia tê-la?


Mas, dessa vez, eu estava no parque. Era um dia bonito lá fora e eu tinha acabado de começar as caminhadas matinais, —a pedido do meu médico. Aparentemente ficar muito tempo sentado de frente para o computador não fazia muito bem.


Ela estava sentada em um banco, rabiscando algo em seu caderno. Sempre achei que ela fosse alguém artística. Não só pelas roupas estampadas, mas era uma forte intuição.


Diminui a velocidade da minha caminhada, usando a desculpa para poder vê-la melhor. Estava usando um fone de ouvido com fio e seus lábios se mexiam cantando a letra de uma música.


Me questionei se deveria ir até ela. Dizer a verdade, que a vi pela primeira vez no ano passado e desde então, não fui capaz de tirar seus olhos da minha cabeça. Mas interrompê-la, de alguma forma, parecia tão errado…

Seus olhos estavam tão focados na folha, que temi que se me aproximasse, ela pudesse se assustar. Seria uma péssima primeira impressão. Além disso, eu não sabia nada sobre ela. Estava solteira? Onde morava? Era uma pessoa gentil? Algo dentro de mim dizia que eu sabia todas essas respostas, e essa mesma coisa, me dizia para ir embora.


Então eu fui.


Caroline ficaria no seu mundo, e eu no meu.


⋆✴︎˚。⋆


Eu a vi pela última vez no verão.


Aquela altura já tinha aceitado que aquele ia ser ou o começo, ou o fim.


Ela estava na frente de um trailer de sorvete, na fila do mesmo que eu decidi ir comprar para me refrescar no verão escaldante.


Não acreditava em destino, mas acreditava em chances, e essa ia ser minha última.


Vi Caroline olhar para o celular, olhar para o parque, voltar para o celular, ela parecia meio impaciente e me perguntei porque ela estaria com tanta pressa. Finalmente chegou sua vez de fazer o pedido. Vi ela pagar depois de trocar algumas palavras e depois, ela se afastou para esperar.


Fui até a janela para fazer o meu. Gostava bastante de Cookies and Cream, era o clássico que eu sempre costumava pedir. Peguei minha carteira para pagar, mas o homem falou algo que me fez parar.


— Não precisa. Já pagaram para você.


Oh.


Meu olhar foi instantaneamente para Caroline. Mas não fazia sentido. Como ela ia saber? Quer dizer, ela foi a última a pagar, será que… balancei minha cabeça me livrando das possibilidades. Não adiantava me iludir. Essa mulher não tinha nada a ver comigo.


— Quem? — perguntei mesmo assim.


— Ela.


O homem apontou com a cabeça para Caroline e por um segundo, senti uma pressão no meu ouvido.

— Obrigado — agradeci meio atordoado.


Agora precisava agradecer. Não me restavam opções. Era obrigação minha ser educado. Tinha incertezas e inseguranças, nunca tinha sido capaz de falar com mulheres, mas talvez fosse mesmo o destino me forçando a tomar alguma atitude.


Caminhei devagar até ficar ao seu lado.


— Você pagou meu sorvete? — perguntei, e odiei como minha voz saiu fraca.


Ela abriu um sorriso, ainda sem olhar para mim.


— Demorou, né?


O que? Tentei esconder minha surpresa, do que ela estava falando? Caroline finalmente virou o pescoço para me olhar e soltou uma risadinha quando viu minha cara de confusão.


— Eu… Não… — tentei expressar.


— Você é uma gracinha — interrompeu.


— Você me conhece? — Parecia uma pergunta muito idiota de se fazer e percebi o quão era quando as palavras sairam da minha boca.


— Sim, Daniel.


O que estava acontecendo?


Pela primeira vez estava ficando nervoso, mas de uma forma completamente diferente. Olhei ao redor para ter certeza de que eu não estava parecendo louco ou falando com uma pessoa imaginária, mas tudo estava normal.


— Como você…


— Eu sei quem você é faz muito tempo. É uma pena que demorou tudo isso para vir falar comigo.


— Achei que…


— Vamos começar do zero. Meu nome é Caroline. Se eu ignorar todas as vezes que você fugiu de mim, você vai ignorar todas as vezes que fui atrás de você, mesmo sem você perceber?


Caroline era uma maluca.


— Como assim todas as vezes? — perguntei.


— Todas as vezes que te vi entrando e saindo de casa, indo no café que eu sabia que você ia estar, ou o dia no parque… tantas oportunidades desperdiçadas…


Ia falar que não. Ia falar que ela era maluca, que estava brincando comigo todos esses meses. Realmente não queria um problema a mais na minha vida, mas como eu sempre soube, ela tinha os olhos de alguém que ia arruinar minha vida, e justamente por isso, não fui capaz de dizer não.


— Começar do zero? — Ela assentiu com a cabeça, satisfeita com a minha resposta. — Quem é você, exatamente?


— Acho que você vai ter que pedir meu número se quiser descobrir.


Como tudo nela me hipnotizava, suas palavras também, então foi fácil responder.


— Qual é o seu número?

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